4 - ESTRATÉGIAS DE ENGENHARIA DE SOFTWARE¶
As decisões desta seção decorrem de três condições descritas nas seções 1 e 2: os requisitos ainda são instáveis, já tendo o escopo sido ampliado uma vez; a cliente é uma usuária real, acessível com frequência, porém sem formação técnica; e o projeto será conduzido por sete estudantes em um semestre, com disponibilidade limitada pelas demais disciplinas. Como prazo e equipe são fixos, o escopo é a única variável de ajuste.
4.1 Estratégia Priorizada¶
- Abordagem de Desenvolvimento de Software: Híbrida. Os requisitos não estão completamente conhecidos e devem evoluir com o feedback da cliente, o que torna inviável fixá-los antecipadamente e tratá-los por controle formal de mudanças; por outro lado, a ampliação já ocorrida no escopo recomenda alguma estruturação inicial antes do detalhamento. A abordagem híbrida concilia as duas necessidades, calibrando o nível de formalidade conforme o contexto de cada fase (MARSICANO, 2026).
- Ciclo de vida: Adaptativo, de natureza iterativa e incremental. O projeto começa exploratório, voltado ao entendimento do negócio, e ganha formalidade à medida que os requisitos se estabilizam; cada iteração entrega um incremento utilizável. Assim, uma eventual queda de produtividade custa funcionalidades de menor prioridade, e não o produto inteiro.
- Processo de Engenharia de Software: DSDM (Dynamic Systems Development Method), processo híbrido/adaptativo que abrange gestão do projeto, governança e envolvimento do negócio, e não apenas práticas de desenvolvimento (MARSICANO, 2026). Por reunir ciclo de vida, papéis e mecanismos de controle de escopo em um único processo, dispensa a combinação com um framework de gerenciamento adicional.
- Framework de gerenciamento operacional: Kanban. Embora o DSDM já reúna ciclo de vida, papéis e controle de escopo, ele não prescreve como o trabalho deve ser visualizado e conduzido no dia a dia dentro de cada timebox. Para isso, a equipe adota o Kanban como instrumento operacional: um quadro visual com colunas de status e limites explícitos de trabalho em andamento (WIP), que tornam gargalos e sobrecarga visíveis em tempo real, sem sobrepor os papéis e os mecanismos de priorização já definidos pelo DSDM (ANDERSON, 2010).
Para caber na realidade da equipe, o processo foi calibrado da seguinte forma:
- Fases: Estudo de viabilidade e de negócio nas primeiras semanas, seguido das iterações de modelo funcional e de projeto e construção, encerradas pela implementação ao final do semestre (AGILE BUSINESS CONSORTIUM, 2021).
- Timeboxes: Timeboxes de duas semanas, aproximadamente seis após o estudo inicial, alinhados às unidades da disciplina. Prazo e equipe permanecem fixos; o escopo alocado a cada timebox é o que se ajusta.
- Priorização MoSCoW: Cada requisito é classificado em Must have, Should have, Could have ou Won’t have this time. Os Must have delimitam o MVP e são dimensionados para um ritmo conservador; as classes inferiores funcionam como margem de manobra em semanas de sobrecarga (MARSICANO, 2026).
- Papéis: A cliente atua como Embaixadora do Negócio, participando dos workshops e das revisões de timebox; um integrante acumula o papel de Visionário do Negócio, guardando os objetivos do produto e fazendo a interlocução com a cliente entre as sessões; outro responde pela coordenação técnica; e os cinco demais desenvolvem e testam.
- Elicitação: Por workshops facilitados no início de cada fase, com protótipos evolutivos como principal instrumento de captura, comunicação e validação de requisitos.
- Documentação “quanto basta”: Business case enxuto, definição de arquitetura e protótipos, somados aos artefatos exigidos pela disciplina.
- Métodos técnicos complementares: Como o DSDM não prescreve práticas de codificação, a equipe adota testes automatizados sobre as regras de cálculo de saldo, orçamento e metas, integração contínua e revisão obrigatória por pull request; métodos e processos são complementares (BECK; ANDRES, 2004; MARSICANO, 2026).
- Elementos reduzidos: A governança corporativa, o patrocínio formal e o estudo de viabilidade extenso previstos pelo método foram enxugados, por serem desproporcionais a um projeto acadêmico sem orçamento e sem exigência regulatória. A comunicação diária é substituída por sincronização assíncrona escrita e uma reunião semanal de alinhamento, dada a incompatibilidade de horários.
4.2 Quadro Comparativo¶
Os dois processos considerados pela equipe foram o DSDM e o OpenUP. Ambos são classificados como híbridos/adaptativos, organizam o trabalho de forma iterativa e incremental e são viáveis para equipes pequenas; diferem na origem, no tratamento do prazo e no peso da estrutura de negócio.
| Característica | DSDM | OpenUP |
|---|---|---|
| Estrutura | Estudo de viabilidade e de negócio, iterações de modelo funcional e de projeto e construção, e implementação; trabalho dividido em timeboxes de duas a seis semanas. | Quatro fases (concepção, elaboração, construção e transição), com iterações internas. |
| Organização dos requisitos | Business case, requisitos de negócio e requisitos da solução, todos classificados por MoSCoW. | Visão, casos de uso ou histórias, requisitos técnicos e não funcionais. |
| Documentação | Guiada pelo princípio de “quanto basta”: business case, definição de arquitetura e protótipos evolutivos. | Enxuta frente ao RUP: visão, lista de requisitos e modelo de casos de uso simplificado. |
| Mudanças de requisitos | Acolhidas com prazo e custo mantidos fixos; o ajuste recai sobre o escopo, por repriorização MoSCoW. | Adaptáveis, porém condicionadas à arquitetura definida nas fases iniciais. |
| Envolvimento da cliente | Papéis de negócio explícitos (Embaixador e Visionário) e workshops facilitados; pressupõe participação frequente. | Colaboração direta com stakeholders em revisões e demonstrações, sem papéis de negócio dedicados. |
| Curva de aprendizado | Média a alta; exige assimilar fases, papéis e vocabulário próprios do método. | Média; exige assimilar fases e artefatos do Processo Unificado durante a disciplina. |
| Limitação principal | Mais prescritivo que métodos ágeis leves e potencialmente burocrático; depende de compromisso contínuo do negócio. | Custo de estruturação elevado para projetos curtos e de baixa criticidade. |
Quadro 3 – Comparação entre DSDM e OpenUP para o contexto do UniCash.
Fonte: elaborado pela equipe (2026).
4.3 Justificativa¶
A equipe optou pelo DSDM pelos seguintes motivos:
- Trata o prazo fixo como premissa, não como risco: Diferentemente de outros métodos ágeis, o DSDM mantém prazo e custo fixos e ajusta o escopo pela priorização MoSCoW (AGILE BUSINESS CONSORTIUM, 2021). É exatamente a restrição do projeto: com equipe e semestre imutáveis, o conjunto de Must have define o MVP e as classes inferiores absorvem semanas de sobrecarga sem ameaçar a entrega final.
- Torna a prioridade explícita e negociável com a cliente: As quatro classes do MoSCoW formam um vocabulário que uma usuária sem formação técnica compreende e utiliza, deixando claro o que é essencial e o que pode ser adiado para cumprir o prazo (MARSICANO, 2026). O corte de escopo deixa de ser decisão técnica unilateral e passa a ser acordo com a cliente.
- Valida por protótipo e ainda assim documenta o suficiente: A iteração de modelo funcional gera protótipos que servem simultaneamente de especificação e de validação, e uma tela funcional produz feedback mais preciso de uma usuária não técnica do que a leitura de artefatos. Ao mesmo tempo, a documentação “quanto basta” cobre as exigências documentais da disciplina sem o formalismo de fases do OpenUP, desnecessário em um produto de lançamento manual, sem transações financeiras e sem exigência regulatória (KROLL; MACISAAC, 2006).
Kanban: A escolha decorre da mesma restrição de fundo: com prazo e equipe fixos, a equipe precisa de visibilidade contínua sobre o fluxo para redirecionar esforço a tempo de proteger o escopo Must have, algo que o ritmo de duas semanas do timebox, por si só, não garante entre uma revisão e outra. Por não prescrever fases, papéis ou vocabulário próprios, o Kanban se soma ao DSDM sem conflito de governança, funcionando como camada de execução dentro da estrutura de fases e prioridades já estabelecida.