1.1 Identificação do Cliente/Parceiro
- Nome: Laboratório de Competência em Software Livre (LabLivre)
- Tipo: Laboratório Avançado de Produção, Pesquisa e Inovação em Software Livre
- Representante: Daniela Soares
- Forma de contato: Reuniões periódicas por videoconferência, e-mail e canal de mensagens instantâneas
- Vínculo com o projeto: O cliente principal é responsável por fornecer a visão do negócio, validar as decisões e aprovar as entregas do projeto.
1.2 Introdução ao Negócio e Contexto
O Laboratório de Competência em Software Livre (LabLivre), vinculado à Faculdade de Ciências e Tecnologias em Engenharia (FCTE) da Universidade de Brasília, tem como missão promover a cultura do software livre por meio de pesquisa aplicada e inovação tecnológica. Entre seus princípios norteadores estão a inclusão e a diversidade, materializados na capacitação de jovens, mulheres e grupos sub-representados para liderar transformações sociais e tecnológicas, e entre suas linhas de pesquisa figuram a metodologia de co-desenvolvimento, o aprendizado por experiência e a participação digital.
Nesse contexto, observa-se que a expectativa de produtividade diária no mercado de tecnologia pressupõe um ritmo biológico estável ao longo de todo o mês e desconsidera as variações cíclicas de energia, foco, humor e dor vivenciadas por mulheres, de forma ainda mais acentuada por aquelas que convivem com SOP (Síndrome do Ovário Policístico), endometriose e TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), bem como por aquelas que atravessam a perimenopausa e a menopausa, período em que as oscilações hormonais deixam de seguir um padrão cíclico previsível e passam a afetar de maneira irregular o sono, a concentração e a disposição.
Atualmente, entretanto, essas profissionais organizam seu trabalho em ferramentas genéricas de gestão de tarefas, como Notion, listas pessoais e planilhas, que registram apenas prazos e entregas, sem qualquer relação com o momento do ciclo, os sintomas ou a disposição real da pessoa naquele período. Essa forma de organização produz metas diárias descoladas da capacidade efetiva de execução, transforma oscilações fisiológicas normais em percepção de baixo desempenho e alimenta um ciclo de autocobrança e culpa, dificultando o planejamento realista das atividades, a autoavaliação justa do próprio trabalho e, em última instância, a permanência e a adaptação da mulher no mercado de trabalho tecnológico.
Essa lacuna se alinha diretamente à atuação do LabLivre: ao assumir a inclusão e a permanência de mulheres na tecnologia como princípio institucional, o laboratório tem interesse direto em compreender como as expectativas de produtividade vigentes afetam a trajetória dessas profissionais e em produzir evidências sobre o tema.
1.3 Rich Picture
A Figura 1 apresenta a Rich Picture do contexto atual. Atores representados: mulher profissional de tecnologia (usuária) e gestor de equipe.

Fluxo problemático atual: A mulher desenvolvedora realiza suas atividades profissionais sob a influência de alterações hormonais ao longo do ciclo menstrual, que podem provocar variações em sua produtividade. Embora o ciclo menstrual possa ser acompanhado por meio de um calendário, essa informação não é integrada automaticamente ao planejamento das atividades e ao gerenciamento de tarefas. Dessa forma, as tasks são organizadas sem considerar o período do ciclo menstrual, enquanto o supervisor mantém a expectativa de cumprimento das demandas e existe uma cobrança diária por produtividade. Como consequência, quando a desenvolvedora apresenta uma redução de produtividade e não consegue cumprir todas as tarefas planejadas, pode ocorrer culpa punitiva, intensificando a pressão e contribuindo para um ciclo de sobrecarga e perda oculta da produtividade.
1.4 Identificação da Oportunidade ou Problema
Mulheres que atuam na área de tecnologia enfrentam dificuldades para organizar e executar suas atividades em ferramentas de produtividade que tratam todos os dias da mesma forma, desconsiderando variações de energia, foco e disposição ao longo do ciclo menstrual. Rotinas rígidas, cobranças por resultados e métricas tradicionais de desempenho podem intensificar essa dificuldade.
As ferramentas atuais não integram adequadamente os dados do ciclo ao planejamento, não adaptam a organização das tarefas às variações de disposição e podem reforçar uma lógica punitiva de produtividade. Para mulheres com disfunções executivas ou TDAH, essas limitações podem aumentar o esforço necessário para gerenciar as atividades, favorecendo a autocobrança e a culpa.
Esse cenário é agravado por uma cultura profissional que espera um ritmo constante de produtividade e pouco considera a saúde menstrual. Como consequência, ocorre sobrecarga executiva e perda oculta de produtividade, pois a profissional precisa manter o mesmo padrão de desempenho mesmo quando sua capacidade de foco, energia e execução varia ao longo do ciclo.
A Figura 2 apresenta o Diagrama de Ishikawa, no qual são organizadas as possíveis causas do problema identificado segundo os 6M’s (Método, Mão de Obra, Máquina, Materiais, Medida e Meio Ambiente). O diagrama evidencia como fatores relacionados aos métodos de trabalho, recursos utilizados, ferramentas tecnológicas, características individuais, métricas e ambiente profissional contribuem conjuntamente para o problema identificado.

1.5 Desafios do Projeto
O principal desafio operacional é considerar as variações de produtividade relacionadas ao ciclo menstrual sem reforçar a cobrança e a culpa sobre a mulher desenvolvedora, pois qualquer forma de acompanhamento corre o risco de se converter em uma nova métrica de controle e reproduzir a mesma lógica punitiva que caracteriza o problema.
Soma-se a isso um desafio de conhecimento, já que a equipe não domina o domínio de saúde menstrual e de função executiva, e a relação entre a fase do ciclo e a capacidade de execução varia de pessoa para pessoa, o que exige elicitação junto a usuárias e validação com o cliente antes que qualquer padrão seja assumido como regra, evitando o tratamento determinístico do ciclo.
Do ponto de vista técnico, o desafio será correlacionar automaticamente as tarefas diárias com o período do ciclo menstrual e ajustar o planejamento das atividades às possíveis variações de disposição, operando sobre dados sensíveis que precisam permanecer sob controle exclusivo da usuária, sem exposição indevida a supervisores ou outras pessoas.
1.6 Mapa de Stakeholders
| Stakeholder | Relação com a Solução | Interesse Principal | Poder decisório |
|---|---|---|---|
| Mulher profissional de tecnologia | Usuária direta e principal beneficiária da solução | Planejar e organizar suas tarefas considerando as variações do ciclo menstrual, reduzindo sobrecarga e culpa punitiva | Alto |
| Daniela Soares (representante do LabLivre) | Representante do cliente; valida decisões e aprova as entregas | Assegurar que a solução esteja alinhada aos princípios institucionais de inclusão e permanência de mulheres na tecnologia | Alto |
| Gestor de equipe | Não é usuário do sistema, mas define as demandas e os prazos sobre os quais a usuária atua | Manter previsibilidade de entrega da equipe | Alto |
| Equipe de desenvolvimento | Responsável pela construção | Entregar uma aplicação que atenda às necessidades reais do cliente | Alto |
| Profissionais de Saúde | Consultores e potenciais colaboradores na validação das informações relacionadas ao ciclo menstrual | Garantir que as informações sobre o ciclo e seus impactos sejam apresentadas de forma adequada e responsável | Baixo |

1.7 Segmentação de Clientes
A solução deverá atender a três segmentos de clientes, definidos por faixas etárias mutuamente exclusivas, acrescidos de um recorte transversal que atravessa os três:
- Estudantes de tecnologia (18–24 anos): São mulheres que cursam graduação ou formação na área de tecnologia e precisam conciliar estudos, projetos, trabalhos acadêmicos e outras responsabilidades. Buscam ferramentas que auxiliem na organização das atividades e que considerem suas variações de energia, foco e disposição ao longo do ciclo menstrual.
- Jovens profissionais de tecnologia (25–30 anos): São mulheres em início ou consolidação da carreira, como desenvolvedoras, engenheiras de software e analistas. Lidam com prazos, demandas simultâneas e necessidade de manter um ritmo constante de produtividade, podendo enfrentar sobrecarga executiva e dificuldades para adaptar sua rotina às variações individuais.
- Profissionais experientes de tecnologia (31–55 anos): São mulheres que possuem maior experiência profissional e geralmente lidam com responsabilidades mais complexas, como projetos, liderança, reuniões e múltiplas demandas. Valorizam organização e previsibilidade, mas podem enfrentar dificuldades quando as ferramentas tradicionais não consideram suas variações de energia, foco e capacidade de execução.
- Mulheres neurodivergentes na tecnologia (recorte transversal aos três segmentos anteriores): Este segmento reúne mulheres que atuam ou estudam na área e apresentam dificuldades relacionadas à função executiva, como planejamento, início, organização e conclusão de tarefas. Buscam uma forma de produtividade que reduza a sobrecarga, a autocobrança e a culpa, adaptando as demandas à sua capacidade de execução.
- Mulheres em perimenopausa e menopausa na tecnologia (recorte transversal): Este segmento reúne mulheres que atuam na área e vivenciam a transição menopausal, período em que as variações hormonais deixam de seguir a regularidade do ciclo menstrual e passam a se manifestar de forma irregular, com impactos sobre sono, concentração, memória de trabalho e disposição. Buscam uma organização de tarefas que acomode oscilações menos previsíveis e que não trate a queda de desempenho em dias sintomáticos como falha pessoal.